O manifesto ágil foi criado em 2001 por 17 especialistas de desenvolvimento de softwares como Kent Beck, Martin Fowler e Jeff Sutherland. Desde então, os princípios desse acordo ultrapassaram as barreiras da engenharia de software e chegaram a empresas de diferentes segmentos por meio das metodologias ágeis, colocando livros sobre o tema na lista dos mais vendidos, transformando a forma de fazer negócio e criando uma liderança ágil, focada em crescimento.

A mentalidade ágil se tornou uma cultura que envolve valores, princípios e práticas  que juntas têm como missão substituir a gestão focada no comando e controle, por uma liderança flexível, focada no cliente e com alto poder de adaptação.

No entanto, por mais que metodologias como o Scrum — que tem como foco o trabalho criativo e adaptável na solução de problemas complexos — ou o Kanban — que visa reduzir prazos e gerenciar a quantidade de trabalho em andamento — ainda é comum que líderes apliquem o ágil com mentalidade de comando e controle. O que nos leva a crer que colocar em prática tais metodologias exige que haja uma mudança no mindset dos executivos, principalmente dos C-Levels.

Para tanto, se uma empresa quer crescer de forma acelerada, entregar valor para o cliente e criar um ambiente que seja de fato ágil é preciso investir em uma liderança inovadora que atinja os vários níveis de gestão da organização. Este é o assunto deste artigo.

Qual a diferença entre equipe ágil e liderança ágil?

Uma equipe ágil está focada em devolver soluções inovadoras para ampliar o valor entregue ao cliente, o mais rápido possível utilizando ferramentas como Scrum e Kanban. Já uma liderança ágil precisa fazer com o que a mentalidade e as metodologias ágeis sejam aplicadas, garantindo que as equipes inovadoras e ágeis sejam incluídas nos setores-chave, que haja experimentação, decisões descentralizadas e flexibilidade, mas sem perder de vista as operações que sempre garantiram integridade dos negócios.

Uma liderança ágil exige que os executivos criem sistemas equilibrados que ofereça ao mesmo tempo estabilidade e agilidade. Ou seja, atuar de forma ambidestra ao buscar padronizar operações e investir em inovações. Buscar esse equilíbrio não é tarefa fácil. Além de variar de empresa para empresa, não se pode correr o risco de ficar obsoleto ao continuar replicando processos ou tornar a organização caótica ao querer mudar rápido demais.

É por isso que o primeiro passo da liderança ágil deve ser criar métricas para determinar o quão ágil a organização é, até que ponto pode ser e qual o tempo necessário para analisar e reavaliar se as metodologias ágeis têm levado a empresa para o caminho correto.

E as estatísticas das aplicações das metodologias ágeis são de fato animadoras. O artigo Embracing Agile da Harvard Business Review (maio, 2016) mostrou que os números podem chegar a um aumento de 50% no lançamento de novos produtos, 40% mais leads para o departamento de marketing e 60% a mais de candidatos recrutados pelo Recursos Humanos.

No entanto, o artigo The Agile C-suite a new approach to leadership for the team at the top (maio, 2020) — no qual este artigo é inspirado — apontou que, quando os executivos seniores de uma empresa estão focados em tornar uma organização ágil, os líderes quadruplicam o tempo gasto com estratégias e reduzem o tempo gasto no gerenciamento de operações pela metade. Por outro lado, a gestão de talentos aumenta cerca de 30 e 35%.

Tudo isso porque a mentalidade e liderança ágil permite que os executivos deleguem algumas de suas atividades para os seus subordinados para que se concentrarem em tarefas estratégicas que somente eles podem realizar. A chave para o sucesso aqui é que os executivos entrevistados para o artigo conseguiram perceber que uma hora gasta revisando o trabalho de gerentes operacionais experientes cria menos valor incremental do que uma hora investida em inovação.

O ágil exige que os executivos sejam humildes

Inovar exige aprendizado e testes constantes e isso não é novidade. Contudo, você deve conhecer um executivo brilhante, autoconfiante, inteligente e que acha que não precisa aprender mais muitas coisas, além  de estar acostumado a ditar ordens. Essa postura é  contrária à cultura de inovação. Comunicar de forma constante e transparente, descentralizar decisões, dar autonomia para a equipe e realizar avaliações contínuas,  este é o caminho a ser trilhado por um líder inovador.

É por isso que a liderança ágil é desafiadora para os executivos, uma vez que eles precisam compartilhar todo o seu conhecimento e reforçar a confiança de cada colaborador e não apenas para tomar decisões sozinhos, mas também para seguirem motivados e entregando valor para os clientes.

Líderes ágeis e inovadores sabem que uma boa ideia pode vir de qualquer pessoa, criam ciclos de feedbacks constantes e se auto avaliam constantemente para que consigam encontrar formas de levar a equipe para outro nível. Afinal, uma empresa é feita por pessoas e são essas pessoas que se dedicam todos os dias para que os resultados sejam atingidos.

Abaixo, confira algumas dicas para tornar a liderança ágil e focada no bom relacionamento com a equipe:

Feedback Rápido

Não demore a dar feedbacks, principalmente quando o que está em jogo são projetos novos. Não espere as finais das sprints para que isso aconteça e repense as reuniões longas. Ou seja, dê feedbacks sempre que necessário e em qualquer lugar.

Mudando um pouco a forma de dar retornos sobre as atividades para os colabores, as tomadas de decisões tendem a ser mais rápidas e o ajuste nas atividades também. Esse ciclo de feedbacks curtos e constantes são capazes de corrigir erros e fazer com que todos operem na mesma página.

Por fim, a liderança ágil precisa deixar um canal de comunicação aberto para que os subordinados também se sintam à vontade para fazer o mesmo.

Compartilhamento de  conhecimento

Um líder ou um executivo sênior não chegou nesta posição à toa, portanto é importante que compartilhem o conhecimento. É claro que não estamos dizendo que a liderança ágil deva fazer palestras com ppts  ou compartilhar conhecimento de maneira top-down. Muito pelo contrário, como foi comentado anteriormente, executivos também têm muito a aprender e é a troca que faz com que a  gestão do conhecimento dentro de uma organização seja mais rica e eficaz.

Compartilhe dicas de livros ou artigos relevantes nos canais de comunicação da empresa e crie essa cultura de troca de conhecimento. Pode ser no café, em um happy hour ou até mesmo separando um pequeno tempo na agenda dos colaboradores para estudar sobre algo novo.

Otimize as reuniões

Se a ideia é aproveitar melhor o tempo para que possa sobrar cada vez mais espaço para investir em estratégia, transforme as reuniões em sessões de trabalho. A liderança ágil deve esquecer os formatos longos e sem pautas nos quais cada um fala a sua opinião e ao final não se chega a lugar nenhum.

Uma liderança ágil deve transformar uma reunião longa em uma sessão de trabalho. Nela, o foco é na decisão. Mesmo que haja conflitos e opiniões divergentes, essas reuniões devem ter uma pauta mais flexível e todos devem sair delas cientes de suas responsabilidades, prazos e qual o objetivo dessas tarefas para o bom andamento dos projetos.

À liderança ágil compete motivar seu time de forma humana e engajadora, considerando que a cada dia as mudanças serão mais rápidas e dinâmicas, exigindo celeridade na tomada de decisão para antever prováveis problemas e identificar novas oportunidades para inovação.

Liderança ágil e trabalho remoto

O mundo do trabalho está mudando rapidamente e, com isso, precisamos lidar com desafios, assim como prevê-los. O trabalho remoto é uma das transformações mais significativas que vivenciamos nos últimos tempos.

Para grande parte das empresas e seus funcionários, qualquer lugar pode se tornar um escritório: tendo os equipamentos, conexão com internet e concentração necessários, o trabalho presencial passou a ser uma opção, não mais uma regra. Nesse contexto, uma liderança ágil é essencial para manter sinergia entre empresa, gestores e liderados.

De acordo com uma pesquisa da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), 80% dos gestores das empresas brasileiras aprovam o regime de trabalho remoto. Independente da empresa adotar um modelo híbrido ou totalmente remoto, esse é um número bastante relevante e não pode ser ignorado. 

Entretanto, não significa que não existam desafios! Muito pelo contrário. Atualizar-se para manter os colaboradores protagonistas de suas atividades, motivados e o time unido, requer estratégias específicas para atuar em um contexto incerto.

Vantagens do trabalho remoto

Sempre será desafiador atualizar-se e acompanhar as mudanças que o dia a dia do trabalho exige. E com a aceitação do trabalho remoto cada vez maior, bons líderes precisam olhar com atenção para todos esses movimentos e como a liderança se relaciona com a inovação nas empresas.

Você sabia que, segundo um artigo publicado na revista americana Fast Company, desde o início de 2020, quase 40% dos moradores de grandes cidades já consideraram se mudar em busca de lugares que ofereçam melhor qualidade de vida? Isso significa nas entrelinhas que nem todo mundo mais está disposto a voltar para grandes metrópoles e seus escritórios, antes fixos, para manter seus empregos. 

Toda a flexibilidade que "trabalhar em qualquer lugar" oferece, pode ser vista como benéfica para o futuro do trabalho. Sem a necessidade de arcar com manutenção de escritórios e grandes locais que comportam todo o time, por exemplo, a empresa pode realocar tais investimentos em outras prioridades. 

Assim sendo, inovação é a palavra de ordem para beneficiar seu negócio. Isso não significa apenas investir em tecnologias que acompanhem o crescimento da sua empresa. Claro, é uma parte bastante necessária, mas para manter o time inovando, é importante investir no desenvolvimento de seus profissionais.

Importância de manter o time motivado

Os gestores sempre tiveram a responsabilidade de cuidar. Além disso, devem gerenciar as tarefas a serem entregues para o negócio seguir rodando e fazer a gestão de seus colaboradores. Tal necessidade é ainda mais latente quando falamos no trabalho do futuro. A principal responsabilidade do líder passa a ser a gestão de pessoas, compreendendo a melhor maneira de mantê-las motivadas e engajadas com o trabalho. 

Com a distância física do time, um bom líder deve encorajar a cultura da "autoliderança”. Isso significa que todos os funcionários estão alinhados sobre as suas principais responsabilidades, eles buscarão se desenvolver com o time e ser eficazes.

Além disso, com o exemplo do líder investindo em tempo de conhecimento para si mesmo, o time tende a sentir-se estimulado a também fazer o mesmo, desenvolvendo protagonismo de suas carreiras. Como isso, depende única e exclusivamente de cada um, quando o colaborador encontra no líder um exemplo e estímulo da empresa a se tornar protagonista de suas expectativas no trabalho, todos saem ganhando. 

E você sabia que esse é um dos pilares que a Gestão Ágil pressupõe para o trabalho? Responder rapidamente a mudanças e ainda assim seguir um plano lógico coerente para todos os envolvidos desde gestores à liderados — está entre um dos valores de uma liderança ágil. Além disso, a motivação, organização, funcionalidade e diversas outras habilidades que fazem parte do trabalho do futuro. 

No caso da motivação, o princípio diz o seguinte: “Construa projetos em torno de indivíduos motivados. Dê a eles o ambiente e o suporte necessários e confie que eles farão seu trabalho.” 

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Como incentivar o protagonismo dos colaboradores

Conheça sua equipe. Esqueça aquela ideia de que a pessoa é uma dentro do horário do trabalho e outra fora dela. É crucial que o líder permita que sua equipe se sinta responsável pelas suas ações, compreenda as necessidades e diferenças de cada um e normalize a vulnerabilidade. Nem todos os dias o profissional estará no seu melhor momento e isso também precisa ser previsto. O importante é confiar que o time será capaz de desempenhar tudo o que lhes foi atribuído. 

Separar espaços para escuta, conversas e feedbacks também é mais uma forma de conhecer seu time e, consequentemente, mantê-lo motivado. Esse encurtamento entre certas diferenças hierárquicas permitem que os colaboradores compartilhem o que acham e necessitam no dia a dia do trabalho. 

Além de promover essa aproximação, são em momentos assim onde certas habilidades e limitações dos colaboradores aparecem com mais evidência. Facilitando, dessa forma, que o líder saiba onde melhor alocar cada talento. Por isso: 

  • Estimule a comunicação aberta, clara e síncrona entre o time; 
  • Incentive, da maneira que for possível para a empresa naquele momento, que seus colaboradores sigam se atualizando a respeito de suas áreas de atuação; 
  • Mantenha espaços de descontração, mesmo a distância, isso pode auxiliar inclusive na criatividade do time em inovar
  • Sempre esteja aberto para receber feedbacks e lembre de repassá-los também. Criar essa cultura entre o time é essencial para a saúde do dia a dia de trabalho. 

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