Criativa, engenhosa e desafiadora. Quando ela tinha uns 2 anos, iniciando a formar as primeiras frases, ela segurou na minha mão e pediu a “corteira”. Fiquei pensando o que seria isso. Achei que fosse a minha carteira de documentos, mas ela disse que não aquilo. Depois de várias tentativas, eu a peguei no colo e pedi que ela me conduzisse até aquele objeto não identificado. Ela acena aquela mãozinha minúscula para o porta chaves onde estrategicamente eu pendurava a tesoura de cortar unhas. E pega a tesoura. Faz sentido: uma tesoura é uma corteira.
Rigor primoroso em tudo o que faz. E o que faz, faz bem feito. Poder-se-ia até dizer que beira a uma certa mania de perfeição. Mas ela sempre foi assim. Um dia, quando ela tinha apenas quatro anos, eu a estava vestindo para a ir para a escola. Fazia muito frio e eu peguei uma “meia-calça”, para colocar por debaixo do agasalho. Essa meia-calça já tinha sido usada e tinha um pequeno furo. Ao perceber o furo, ela questionou porque eu estava colocando nela. Eu respondi: olha, está frio, e ninguém vai ver esse furinho. E ela peremptoriamente me respondeu: mas eu estou vendo. Diante disso, eu troquei a meia.
Sempre a frente do seu tempo, desde menina gostava daquilo que não existia ainda. Dá prá entender? Então. Era assim. Ela gostava de prata quando todo mundo usava ouro. Gostava de um determinado traje e não se achava nas lojas. Pedia um equipamento que não tinha disponível no Brasil. Um dia, ao ler uma revista, viu uma matéria no canto esquerdo inferior da página. Prá quem conhece diagramação sabe que este é o pior lugar para se colocar uma matéria. E essa nota não tinha mais do que uns sete por dez centímetros. Mas com o seu olhar de lince, viu a referência sobre uma nova carreira que surgia no mundo “CoolHunter”. E me disse: vou fazer esse curso. Ocorre que o tal curso só tinha em Nova York, Londres e Itália. Depois de algum tempo procurando, ela encontrou uma escola que a aceitasse. Pediu demissão do trabalho, estudou italiano com afinco por um mês e foi para a Itália onde fez o curso durante quatro meses. No retorno da Itália, me falou: Florianópolis tem sol, mas não tem a empresa em que eu devo trabalhar. Vou para Porto Alegre. E em 3 anos quero estar em São Paulo. Dito e feito. Atualmente ela trabalha com tendências em São Paulo. Apropriado para quem sempre olhou o que ainda não era visível para os outros.
Quando ela tinha uns 8 anos, ela olhou fixamente para mim e disse: sabias que eu te escolhi? … E eu respondi: sabia e sempre te amei. Durante a gravidez a menina se chamaria Raquel. Na hora do parto, veio um insight e pensei comigo. Não nasceu a Raquel, nasceu a Marina. E desde então, esta tem sido a minha melhor experiência de vida. Ser mãe da Marina. Pessoa determinada, nascida sob o signo de Áries, sempre teve um temperamento doce mas ao mesmo tempo, forte. Sempre soube o que queria e o meu papel foi de conselheira apenas.
Há 30 anos, em 10 de abril de 1983, eu recebia essa menina em meus braços. E minha vida mudaria para sempre. Presente maior que a vida me deu. Melhor de todas as minhas experiências sem dúvida, é ser mãe da Marina. Hoje acordo e me dou conta que sou mãe de uma mulher. Uma mulher de 30 anos. Nós, mães, sempre temos o hábito de considerar que nossos filhos são eternas crianças. Quando nos perguntam quantos filhos temos, a resposta é a mesma: 1 menina, ou 2 meninos ou uma menina e um menino. Não importa que idade tenham essas meninas e esses meninos.
Eu tenho pensado diferente. Sou mãe de uma mulher de 30 anos. Autônoma, independente, vibrante e determinada. Uma pessoa que tem me ensinado muito e com quem aprendo diariamente. Moramos distante, tem dias que bate a saudade, que dá vontade de pegar o primeiro voo só prá almoçarmos juntas. A correria da vida nos tira deste convívio, mas isso não nos abala. Parece que moramos na mesma casa, no mesmo local, na mesma cidade. O que nos une é um amor profundo, de grande respeito e reciprocidade. Desenvolvemos uma grande amizade e sou muito feliz por tê-la como filha, mestra, amiga e também conselheira. É muito bom escrever isso neste momento. Parabéns, Marina, mulher de 30.
Já disse hoje que te amo?
Há 30 anos, em 10 de abril de 1983 eu recebia o maior presente da minha vida – a Marina.








