Ontem foi o dia dos pais e pensei muito em escrever um novo post sobre esse homem maravilhoso que foi meu pai e com quem convivi por um curto espaço de tempo. Nesta semana que passou fui recepcionada por um velho amigo dele – Dr. João Jannis e hoje tive a grata surpresa de receber este depoimento, que copio na integra neste espaço. Fica assim feita a homenagem devida. Dr. Jannis, muito obrigado.
Miguel Espera em Deus Manganelli Orofino. O conheci, não posso precisar a data, porém de uma coisa tenho certeza, primeiro de nome, depois pessoalmente. Membro de uma família importante o nome Orofino fazia parte dos comentários da sociedade local quando se mencionava retidão, honestidade. posição e outros qualificativos pertinentes às famílias de bem. Sempre bem trajado, terno e gravata, fino, de olhar altivo e de fidalgo porte, trazia consigo um sorriso meigo num cumprimento, ao apertar suas mãos macias à dos seus amigos. As primeiras lembranças dêle que tenho não sei bem ao certo, Catedral Metropolitana, igreja do Colégio Catarinense, barraquinha do Espírito Santo, procissões, sei lá. O tempo passou, formei-me em Odontologia e nossos destinos se cruzaram. Encontreio-o em 1967 quando ingressava no quadro da saúde do INSS no prédio da propria entidade defronte ao teatro Álvaro de Carvalho, quando era radiologista no segundo turno das 12 às l6 horas. O destino mais uma vez neste mesmo ano nos colocava lado a lado, quando do meu ingresso na UFSC à rua Esteves Junior defronte ao novo prédio do INSS. Assim surgiu a minha amizade com o doutor Miguel, “nomeou-me” seu priodontista e de tôda a sua família.Quando de sua ida aos EE.UU.foi obsequiado com uma assinatura do “Journal of Periodontogy”, a principal revista do mundo em periodontia, a qual me fazia entrega mensalmente e então após a leitura doava-a a Biblioteca da nossa faculdade. Certa feita dirigindo-se a mim disse-me que precisava de um favôr, o que eu depois de dizer sim, perguntei-lhe qual seria. Leva-lo a Blumenau, pois tinha um compromisso religioso e seu carro estava em uma oficina. Dois dias após partimos numa manhã de sol, foram ótimas horas de convívio, pois tive aulas de patologia, religião e um muito bom diálogo. Lembro-me que após o seu compromisso que não foi demorado, fomos almoçar no restsurante Gruta Azul, um dos melhores da cidade. Sentamo-nos, fizemos o nosso pedido e conversávamos enquanto aguardavamos a comida. Após alguns minutos fomos servidos. Eis que se não quando, levanta-se o professor Miguel, e ereto em pose, com a cabeça um pouco levantada para o alto, faz o sinal da cruz, e a curvando encostava no queixo as suas mãos postas de encontro ao peito. Profere uma oração. Embora aquilo me pegasse de surpresa, estava acostumado tambem a fazer orações, mas só que em casa, nunca em público e, mais rápido do que o nosso vento sul, em frações de segundos um pouco atrasado, levantei-me e até um pouco sem jeito, não envergonhado, acompanhei-o fazendo o sinal da cruz, orando até o mestre se sentar. Olhou-me de soslaio, como que entendendo a minha situação e alguns minutos depois em meio a conversa disse-me, Jannis, não precisas me chamar de doutor Miguel, podes me chamar de Miguel, coisa que nunca fiz, nem poderia fazer. Hoje após todos êsses anos quando vou para a minha casa de praia na Cachoeira do Bom Jesus o que faço semanalmente durante, todos êsses anos ao passar por lá, olho a montanha e me lembro da fatídica noite chuvosa Não me deixo levar pelos pensamentos, oro. Saudades do meu professor Miguel Espera em Deus Manganelli Orofino.

