Nestes últimos trinta dias estive envolvida com duas grandes mudanças. Eu mudei de endereço de residência e minha filha mudou de cidade. A mudança, qualquer que seja, sempre tira as coisas do lugar. Pense em qualquer mudança. Sempre nos tira algo, nos coloca outros no lugar, mesmo que seja a temperatura. Mudar significa tirar alguma coisa do lugar e abrir espaço para algo novo e desconhecido.
Durante o processo que ocorre a mudança, a flexibilidade é fundamental. É como estar em um mar revolto. Quando estamos no mar e entramos em uma área de “repuxo’, a ordem é ficar solta, deixar o mar levar o corpo e esperar a primeira onda para voltar para a praia. Eu que moro em uma cidade litorânea, já vivi diversas vezes essa experiência. Soltamos o corpo, boiamos quando for possível, outras vezes mergulhamos, deixamos o mar nos levar e com calma esperamos a onda nos devolver. Muitas vezes paramos em local diferente do que saimos, mas se tivermos calma, retornamos.
Uma mudança de endereço é a mesma coisa. Por ser uma situação complexa, não temos como prever tudo, necessitamos improvisar e principalmente exercitar o desapego. Durante o processo de empacotamento, quando temos tempo, tudo é mais tranquilo, vamos encaixotando, organizando, ajustando o que for possivel. Mas os “finalmentes”, é o momento do desapego mesmo. Ficam coisas prá trás, itens que não se consegue levar e amores que deixam de ser nossos.
A chegada ao novo endereço é um novo processo de ajustes e flexibilização. Os armários nunca são os mesmos, os espaços são diferentes, o sol bate em outra posição, temos espaço demais ou espaço a menos. O modo como ficavam os copos, os pratos e os talheres são alterados. A rota para chegar ou sair da garagem, o controle remoto, o sorriso dos vizinhos ou a cara feia e mau humor altera a nossa visão e forma um outro quadro que nos impõe leveza e adaptação.
É uma interessante experiência se for feito de forma consciente. Ficar atento e observar o movimento pode ser uma singela forma de oração e agradecimento. Observar o que mudou e atentar para as novidades fará nos perceber que a vida é mudança, que a roda gira e que somos feitos de alterações diárias inclusive em nosso corpo. Pontos que a “normalidade” muitas vezes nos impede de ver.

