Acredito que não preciso dizer o quanto eu gosto de mudanças e de organização. O quanto me atrai arrumar uma casa ou colocar um escritório em ordem. Da mesma forma, como é fácil eu fazer uma mala ou organizar um evento para 2000 pessoas. Gosto de concatenar as idéias, organizar dentro da mente e executar. Realmente é algo muito simples gerir diferentes itens, pessoas, processos ou idéias. Isso é algo natural que ocorre de forma tranquila e harmonica. é um ato com leveza, sem pressão aos outros e sem perder os bons momentos da minha vida.
Estou passando por um instante em que papéis são tirados da gaveta, roupas que não servem mais são doadas e poeira é tirada de onde menos a gente espera encontrar. Uma das boas coisas que esses momentos nos reservam são os “achados”. Aquelas recordações que ficaram guardadas em alguma caixa escondida, um livro com um linda dedicatória, cadernos especiais dos filhos quando pequenos e milhares de cartõeszinhos de todas as procedências. Consigo descartar muitas coisas da minha vida, mas o que é significativo, meus amores e bons momentos sempre serão eternos.
Nessas idas e vindas de arrumações, achei um texto que minha irmã Ana Maria apresentou a nossa familia por ocasião de um grande incidente que passamos há alguns anos. O texto tirado a partir da cópia de páginas de um livro, tem escrito a mão “Contos de Andersen, com ilustrações originais – Editora Paz e Terra”. Não consta a data da publicação. Mas porque acho muito interessante, vou transcrever aqui. O título do conto é – Só a pura verdade.
Conto Só a Pura Verdade [ por Andersen]
Que coisa horrivel! – disse a galinha, no outro extremo da cidade, bem longe do bairro onde a história se passara. – É horrível o que houve no galinheiro! Nem arrisco a dormir sozinho esta noite. Ainda bem que somos muitas no poleiro. E passou a contar o ocorrido, fazendo arrepiar as penas das outras galinhas e cair a crista do galo. E era tudo verdade, só a pura verdade.
Mas vamos começar do começo, que ocorreu no extremo oposto da cidade. O sol desceu e as galinhas subiram. Uma delas, de penas brancas e pernas curtas, punha os ovos regulamentares e, como galinha, era respeitável em todos os sentidos. Chegada ao poleiro começou a catar-se com o bico. Caiu ao chão uma peninha.
- Lá se foi uma pena! – disse ela. – Parece que quanto mais me cato, tanto mais bonita vou ficando – acrescentou, por brincadeira, pois era ela o espírito mais alegre da galinhada, embora fosse, conforme já foi dito, criatura de todo o respeito. E logo adormeceu.
Era escuro ao redor. As galinhas estavam enfileiradas, lado a lado, e a que lhe estava mais próxima não dormia. Ela ouviu, e ao mesmo tempo não ouviu, como convém, para se viver em paz neste mundo. Mas teve, assim mesmo, de confiar à outra vizinha o que ouvira. – Ouviste o que foi dito aqui? – conchichou. – Não vou dizer o nome de ninguém, mas há aqui uma galinha que quer arrancar as próprias penas para ficar bonita. Se eu fosse galo, a desprezaria.
Logo adiante, pouco acima das galinhas, estava pousada a coruja, com o corujão e as corujinhas. Naquela familia, sim, todos tinham bons ouvidos. Ouviram cada palavra dita pela galinha. Viraram os olhos e a Dona Coruja abanou-se com as asas. – É feio escutar o que dizem os outros! – comentou ela. – Mas, naturalmente, todos ouviram o que disse a galinha. Eu o ouvi com os meus próprios ouvidos, e deve-se escutar, antes que caiam as orelhas. Uma das galinhas esqueceu a tal ponto a decência, que está tirando todas as penas e deixa o galo ver tudo. – Prenez garde aux enfants! – disse papai Corujão. – Isso não é conversa para crianças ouvirem. – Preciso contar o caso à coruja vizinha, senhora séria e respeitável.
E dona coruja saiu voando. – Hu-uh! Uhu-uhu-uhu! – riram as duas juntas pouco depois. Achavam-se um pouco acima do pombal do vizinho, e as pombas ouviram-nas comentar o caso: – Ouviram esta? Ouçam, que esta é muito boa! Há ai uma galinha que arrancou todas as penas por causa do galo! Vai morrer de frio, se é que já não morreu. Huuu – huuu! – Onde? Onde? Onde? – arrulharam as pombas. – No galinheiro do vizinho. É como se eu mesma o tivesse visto. É coisa que quase nem se devia contar, pois é um tanto indecente. Mas é a pura verdade! – Ora, ora, ora! – arrulharam de novo as pombas.
E passaram a história adiante: – Há uma galinha – há quem diga que são duas – que arrancou todas as penas para não ser igual às outras e chamar a atenção do galo. É uma brincadeira arriscada, pois apanhar um resfriado é o que há de mais fácil, e morrer de febre é o que menos custa. De fato, já morreram, as duas…
- Acordem! Acordem! – cantou o galo, voando para o alto do cercado. O sono ainda lhe pesava nos olhos, mas apesar disso ele cantava: Morreram três galinhas, de infeliz paixão por um galo. Elas arrancaram todas as penas. É uma história muito feia, não quero guardá-la comigo. Que vá adiante.
- Deixa que vá adiante – piaram os morcegos. – Deixa que vá! deixa que vá! cacarejaram as outras galinhas. E a história foi assim circulando, de galinheiro em galinheiro, e por fim, voltou ao local de onde viera.
- São cinco galinhas – contavam – Todas arrancaram as penas para mostrar qual delas tinha emagrecido mais de paixão pelo galo. Depois brigaram, de tirar sangue, e se mataram de bicadas. Ficaram mortas no terreiro. Foi uma ignomínia para a familia delas, e um grande prejuizo para o dono do galinheiro.
Então, a galinha que perdera uma única peninha, ao catar-se não reconheceu a sua própria história, e como se fosse uma galinha respeitável, disse lá com os seus botões: – desprezo galinhas como essas. Não serão as últimas. Há muitas mais dessa marca. Não se deve silenciar sobre tais coisas. Farei o que eu puder para que essa história saia nos jornais e corra o país todo. É o que merecem essas galinhas e também a familia delas. E a história saiu nos jornais, foi impressa e uma coisa é verdadeira: uma única peninha pode facilmente transformar-se em cinco galinhas.

