Este “post” é um resgate de uma crônica que escrevi para compor um livro escrito por uma tia minha em homenagem ao meu avô materno. O livro chamado “Um homem comum também tem a sua história”, foi escrito e coordenado por Maria do Carmo Rodrigues Hickel em 2000, ano em que João Baptista Rodrigues, meu avô, completaria 100 anos.
Segue o texto …
Lembrar do Vovô pensando em Itaguaçú, ou lembrar-se dele em uma canoa, não é uma boa recordação. Como menina, irmã de dois “rapazi” mais velhos, nunca tive espaço nas temporadas de verão. As memórias que tenho da casa de Itaguaçú são aquelas em que pegávamos um “carro de praça” preto, passávamos pela velha Ponte Hercílio Luz ainda com o chão de madeira onde podia se avistar o mar embaixo, seguindo pela estrada de chão batido até a Praia de Itaguaçú. No corpo, o maiô já vestido para não atrapalhar o pessoal da casa e na mão uma sacola de sanduíches com frutas e na outra o invariável “tarro de leite com mate gelado”. Evidente que quem levada o “farnel” eram o pai e a mãe. A mim cabia auxiliar na arrumação das bolsas e ajudar na preparação do mate (era feito com o pó a granel, coado e depois colocado para gelar – um ritual de todos os dias do verão). Quando chegávamos à praia, se corria direto para o mar ficando até a hora do almoço.
Lembrar do Vovô naquela casa, é lembrar-se da hora do banho onde ele ficava reclamando do tempo que se usava a água e isso era medido pelo lado de fora, porque como não havia captação da água usada (na porta do banheiro tinha uma fenda que fazia a água escoar, caindo diretamente no chão de terra batida), ele ficava do lado de fora com uma enxada cavando uns valinhos para a água seguir o curso que ele mesmo dava. As meninas também não podiam entrar na canoa, pegar nos caniços ou jogar crapô com ele. Tudo isto era reservado para os “rapazi”. Rapariga pequena não tinha vez. Nossa família por ser muito grande fazia seu lanche separado do almoço da Vovó, embaixo de uma árvore imensa que havia no quintal. Somente na hora de cortar a melancia que meu avô aparecia e fazia aquilo com uma maestria e tanto. Cortava primeira as pontas da melancia, virava a fruta para ficar de pé, cortava fatia a fatia (super retas porque quem corta fatia torta vai ter filha de perna torta), depois dava uma pancadinha fazendo com que todas caísse em harmonia. E sabiamente o miolo sobrava, parte que ele sorvia sozinho.
Lembrar do Vovô com admiração e saudades, é pensar nele na casa da Mauro Ramos. No período de março a novembro ele se transformava para nós. Era o avó aventureiro, arteiro e companheiro. Que cuidava da gente quando o meus pais viajavam ou participavam de algum retiro de casais. Foi quem primeiro nos levou para visitar o aterro da beira mar norte, quem nos contava as estórias ou que fazia lindos desenhos nos cadernos da escola.
Lembrar do Vovô, é lembrar daquela escrivaninha que ele tinha na sala de casa, com uma porta sanfonada que sumia atrás do próprio móvel. Pessoa bem sucedida profissionalmente, sempre guardei grande admiração pela sua trajetória profissional dentro do Banco do Brasil. Quando ele abria aquela escrivaninha, um mundo novo abria-se para mim. Gostava de ver aquelas papeladas e principalmente seus cadernos de desenho. Desde pequena, por diversas vezes ele me mostrou aqueles desenhos e ao mesmo tempo, demonstrava sutilmente a decepção por não ter aprimorado aquele talento – “Homem direito não podia ser pintor ou desenhar” – Tinha uma família para criar e um nome a zelar. Quem pintava não era bem visto. Paixão maior sempre guardei por um quadro que ficava emoldurado na sala principal da casa que retratava um menino vestido com a farda de um soldado francês – o famoso “Zuavo”. Pintado com o legítimo “crayon” inglês e onde todas as sombras e perspectivas foram feitas com miolo de pão, neste quadro em preto e branco e conseguia ver os olhos azuis do garoto. Aos quinze anos de idade, meu avô ganhou um prêmio máximo em Santa Catarina, das mãos do governador, como o melhor desenho de um concurso de ele havia participado.
Anos mais tarde, quando a casa de Itaguaçú já não era mais habitada e servia de depósito (famoso Quem tem põe – quem não tem tira), eu e o pai fomos levar uns cacarecos para lá guardar e avistamos dentro de um dos armários o tal quadro. Metida como sempre, peguei o quadro e pendurei no hall de entrada da nossa casa na Altamiro Guimarães. Como ele era o dono do quadro, fui até a casa da Mauro Ramos e disse o ocorrido. Lembro nitidamente. Estávamos tomando café na cozinha, ele emocionado pediu que o acompanhasse, subiu até a sala que tinha a tal escrivaninha, abriu e pegou os dois cadernos de desenho e perguntou-me – “Preta, queres também os cadernos de desenho?”. A emoção foi maior do que sinto agora. Dei um abraço apertado e prometi guardar para sempre. Diante de tal presente, não pude guardar tudo comigo. Separei os dois desenhos que mais gostava e dividi irmãmente com os meus irmãos, ficando cada um dos sete filhos da Dilma com dois desenhos do Vovô.
Quando meu avô já tinha seus 78 anos, pintou-me uma aquarela. Era um riachinho com umas árvores tipo chorão caindo na beira d’água, e me deu de presente. Essa foi a nossa cumplicidade. Um segredo que divido agora com quem nos lê. Quanto ao quadro do “Zuavo”, guardo comigo até hoje na sala da minha casa. De tempos em tempos, contrato um restaurador para mantê-lo em ordem em função da sua idade, hoje com quase 100 anos.

Na chegada, a recepção de sempre. Não preciso descrever do que se trata um encontro de família. Quem tem uma sabe do que falo. Os tios e tias a cada dia mais velhos mas com as piadas de sempre. As crianças que crescem, os adolescentes que surgem, o cachorro que late. Sempre tem uma prima que vende alguma coisa, outra que está grávida e uma tia que faz tricô. Drama maior é a hora de lavar a louça. Sempre caio fora e vou brincar com a meninada. Mas sempre são momentos que nos resgata a amizade, o espírito de solidariedade e da certeza que temos com quem contar.



