Rigor primoroso em tudo o que faz. O que faz, faz bem feito. Poder-se-ia até dizer que beira a uma certa mania de perfeição. Mas ela sempre foi assim. Um dia, quando ela tinha apenas quatro anos, eu a estava vestindo para a ir para a escola. Fazia muito frio e eu peguei uma “meia-calça”, para colocar por debaixo do agasalho. Essa meia-calça já tinha sido usada e tinha um pequeno furo. Ao perceber o furo, ela questionou porque eu estava colocando nela. Eu respondi: olha, está frio, e ninguém vai ver esse furinho. E ela peremptoriamente me respondeu: mas eu estou vendo. Diante disso, eu troquei a meia.
Depois, no decorrer da fase da escola primária e secundária, tudo sempre foi feito com detalhes. Interessante que não era a melhor aluna da sala, ou a mais “CDF”. Na minha avaliação, às vezes eu achava até que poderia ir melhor. Mas desde pequena, gostava de “se vestir” com toalhas de banho e fazer arranjos inventando roupas e trajes. Ficava horas na frente do espelho do meu quarto inventando e criando cenas. Uma vez eu estava vendo na TV um desfile de modas e a questionei sobre a praticidade das roupas que eram apresentadas. Ela, com uns quinze anos, me respondeu: Mãe, tens que entender que esses desfiles são apenas expressão da arte. Não importa se terão ou não utilidade.
Com tudo o que eu ouvia e via, sempre aprendia com ela. A primeira opção no vestibular foi para a Faculdade de Moda. Mas na ocasião era exigido um teste de aptidão para o desenho e ela não foi aprovada. Na verdade, ela não dava muita importância para aquilo que para ela não era relevante. Entender de física e matemática para passar em um vestibular, não cabia na mente de uma pessoa tão determinada e prática.
Os vestibulares ocorriam com algumas semanas de diferença. Ao optar por moda, também decidiu que faria o vestibular para o curso de Publicidade e Propaganda. E foi aprovada para este. Com apenas um semestre de curso realizado, apareceu um concurso para estagiário em uma grande agência de publicidade e ela participou da seleção. Fez a inscrição, enviou o portfólio e venceu o concurso. Anos depois, eu tive a oportunidade de conhecer a equipe que havia trabalhado com ela e fiquei sabendo que ela tinha sido a única candidata que na entrevista determinou a área que gostaria de trabalhar: redação publicitária.
Fez com louvor o curso de publicidade. Na ocasião o TCC foi considerado uns dos melhores do curso e serviu de referência e promoveu grandes mudanças na empresa que foi beneficiada com o projeto. Trabalhou como redatora por alguns anos até que um dia, ao ler uma revista, viu uma matéria no canto esquerdo inferior da página. Prá quem conhece diagramação sabe que este é o pior lugar para se colocar uma matéria. E essa nota não tinha mais do que uns sete por dez centímetros. Mas com o seu olhar de lince, viu a referência sobre uma nova carreira que surgia no mundo “CoolHunter”. E me disse: vou fazer esse curso. Ocorre que o tal curso só tinha em Nova York, Londres e Itália. Depois de algum tempo procurando, ela encontrou uma escola que a aceitasse. Pediu demissão do trabalho, estudou italiano com afinco por um mês e foi para a Itália onde fez o curso durante quatro meses. No retorno da Itália, me falou: Florianópolis tem sol, mas não tem a empresa em que eu devo trabalhar. Vou para Porto Alegre. E foi. Isso já faz quase três anos.
Nesse período, decidiu fazer uma pós em marketing de moda. Novamente a moda. Novamente as lembranças das toalhas enroladas no corpinho de criança quando brincava. Foram complementares aos seus estudos na área que sempre brincou. Mas como eu já disse, não era a mais aplicada da sala, chegava algumas vezes atrasada, os prazos dos trabalhos eram negociados, mas quando feitos, sempre eram bem feitos. E foi nesse sufoco, trabalhando durante toda a semana e cursando a pós de marketing de moda nos sábados, durante dois anos, que ela se dedicava a mais um desafio. E concluiu as disciplinas. Faltava o trabalho final, um TCC por ser um curso de especialização. E não seria feito de qualquer maneira. Não sendo a Marina que eu conheço.
Foram algumas semanas de dedicação intensiva. Pediu uns dias de férias, veio para Florianópolis para poder ficar focada no trabalho, mergulhou dia e noite. Notívaga, iniciava os trabalhos por volta das duas horas da tarde e só parava às seis horas da manhã. Dormia pela manhã e virava a noite. Foram quinze dias em que só parava para fazer as refeições, tomar um banho e seguir novamente na frente do computador.
O resultado chegou hoje. A ESPM, Escola Superior de Propaganda e Marketing havia selecionado o trabalho dela como um dos cinco melhores de todos os TCC’s do ano de 2009 em toda a Escola situada em Porto Alegre. Por várias questões não pude estar presente na festa, mas fiquei emocionada ao receber a mensagem pelo celular: Ganheiiiii ouro !!! – Marina, filha querida, és ouro. Ouro Fino. Parabéns.

