O livro, editado pela Cia das Letras

O livro, editado pela Cia das Letras

O Chico prá mim sempre foi um ícone. Lembro que quando eu cursava Letras nos idos dos anos setenta, já ficava impressionada com a métrica da letra da música “Construção”. Como compositor, eu o acho fantástico. Olhos claros num país de mulatos, mescla a soberania e classe nobre com o que tem de mais vulgar. Circula com desenvoltura em Paris como transita com leveza no Morro da Mangueira e é sogro de Carlinhos Brown. Seguro de si, burlou a censura nos tempos da ditadura e se auto exilou em Roma, mas sempre manteve os laços com o Brasil. Descobrir Chico escritor foi outra grata surpresa. Roda Viva, Estorvo, Benjamim. Não li Budapeste. Sob o pretexto de não dar chocolate nesta Páscoa à Marina (minha filha), resolvi comprar o livro “Leite derramado” e levei para dar a ela durante a nossa viagem à Montevideo. Entregue o presente, resolvi dar uma foleada no livro e não larguei mais. Como o presente era prá ela, comprei um prá mim e li de uma tacada só. O livro é o relato de um velho de 100 anos, numa cama de hospital, contando as suas memórias. Lembra aquelas histórias que já vivenciamos com os velhos das nossas vidas. O velho do livro evoca objetos, fatos e coisas que estão a ponto de sumir da nossa memória. Recorda com senso de humor, arte e real conteúdo, matéria prima escassa nesses tempos de internet. E mostra com leveza o que significa a famigerada frase – pai nobre, filho esnobe, neto pobre. Fenomenal.