Continuando a saga dos encontros de família, as festividades de Natal podem ser caracterizadas como um das maiores do ano. Motivo para reunir parentes que moram distantes, avós, tios e primos e até mesmo aqueles com quem não simpatizamos muito. O momento é de confraternização, amigos invisíveis [ou inimigos visíveis!?], abraços em tias idosas e beijos em primas que vemos somente naquele dia do ano.

Minha vida em família guarda bons momentos dos encontros de Natal. Fui educada na fé cristã em casa onde não existia “Papai Noel”, mas sim a majedoura a espera do nascimento do Menino Jesus. Éramos estimulados a praticar boas ações e a cada ato consciente realizado em prol do outro, tinhamos o direito de colocar uma palha na manjedoura para que o menino quando nascesse encontrasse um berço macio, mesmo que em um ambiente hostil.

Nas semanas que precediam a festa de Natal, nossa casa era invadida por um perfume delicioso dos biscoitos que eram preparados pela minha mãe, especialmente e somente naquela época do ano. Destaque para a “estrelinha de Natal”, ”Doce da Margot”; pão de mel; os biscoitos de gergelin e amêndoas e do famoso Bolo de Natal. Nos próximos posts colocarei as receitas para compartilhar com quem lê. A preparação dos biscoitos tinha um ritual especial. Primeiro, minha mãe preparava as massas. Depois de esticar em uma “tampo de mármore” na sua mesa da cozinha, um a um eram modelados e cortados em forminhas com o motivo escolhido: estrelinhas; meia lua e assim por dia. Os biscoitos eram colocados em assadeiras e aguardados ansiosamente que ficassem prontos. Imaginem que em uma família com sete crianças mais os agregados da vizinhança, ninguém comia antes da hora ou antes do dia de Natal. Eu sempre acompanhava esse processo, sentada em um banquinho, observando o movimento. Após a etapa de cozimento, os biscoitos eram guardados em latas especiais para em outro momento voltarem para a produção do acabamento. Alguns recebiam recheio, outros cobertura de açucar de confeiteiro, alguns recebiam cobertura com açucar cristalizado e havia aqueles que além da cobertura e do recheio, recebiam também uma borda com amêndoas picadas ou coisa do gênero. Era uma função que durava semanas.

Rigorosamente 10 dias antes do Natal, minha mãe elaborava o bolo, uma receita alemã que prometo colocar aqui também. Como não leva leite na composição e é feito a base de frutas cristalizadas, frutas secas e rum, ela sempre diz que “quanto mais velho, mais gostoso”. O aroma que exala da junção dos ingredientes é algo que o computador ainda não pode expressar. Mas um cheiro que sempre resgatará esses bons momentos da minha infância. Até hoje ela ainda faz esse bolo. A mesma receita desde 1952. Mas a mágica do processo da feitura do bolo é o preparo dos ingredientes. Todos minuciosamente picados, um a um, em pedaços minúsculos, tudo sem carroço e casca. Não existe perdão para quem colocar um carroço de qualquer fruta dentro de um bolo ou doce, ela sempre comenta.

Vou continuar esse assunto, como forma de preparação do meu Natal, em posts vindouros. E compartilhar com vocês a deliciosas receitas da minha mãe. Espero que quem ler, crie a coragem e viva esse processo.